domingo, 24 de junho de 2007

A PRIMEIRA IMPRESSÃO É FUGAZ

Seria um passeio comum de final de domingo, enfadonho tanto pelo horário quanto pelo local, cansativo no entardecer de um dia que arrastava-se para dar lugar à noite. Passeio familiar, preparação para o crepúsculo de um domingo inerte, destelhado. Chegamos a um lugar inóspito, pouco habitado. Ouvira falar sobre aquele lugar e o imaginava diferente: verdejante, oriental, circundado de lanternas japonesas, lagos de carpas, um lugar agradável aos olhos. Afinal, era um recanto de propriedade de japoneses, família de imigrantes que chegou ao país em 1908. Mas não. O local estava semiabandonado, poucas pessoas transitavam, caçando contentamento entre as árvores de galhos secos, árvores ralas de folhas. A terra apegava-se aos sapatos, como se quisesse fugir dali, do desterro, para encher outras paragens. Não havia nenhum inseto, por menor que fosse. Era como se tivessem fugido, retirantes, esperançosos de um lugar melhor para habitarem. A natureza estava morta; não num quadro, na realidade. Faltava ar, brilho, alegria. Triste maneira de terminar um domingo, este dia que é gordo, afável, mas que no anoitecer lembra fumaça vulcânica.

Senti vontade de ir embora, mas todos estavam animados em permanecer, carentes de natureza, não sabiam distinguir um ambiente saudável, rejuvenescedor, de um desértico. Não tinham experiência, acostumados com a poluição da cidade. Uma moita de fuligem tomava a forma de uma vegetação anã, bonsai cuidado com a meticulosidade de samurais da jardinagem. Queria sair correndo, ir em busca da tranqüïlidade da agitação da rodovia, onde carros voavam frenéticos, entre buzinas e faróis altos, como se guiassem navios que corriam o risco de naufragar no oceano de asfalto. Ao longe, luzes amareladas da cidade. O tempo passava e queriam continuar naquelas ruínas, explorando cada canto do que outrora fora um jardim oriental, estádio do sossego.

Contrariado, tentei imaginar que não estava ali, tentei dormir, mas a insônia me açoitou. Tivera uma péssima impressão, não conseguiria enxergar nada de inovador, nada que remetesse ao passado glorioso do recanto. O que deveria ser prazer, era agonia. Antes tivesse ficado em casa; agora, não estaria me afogando no tédio, não estaria prestes a desmaiar. Fomos a um bar, a única opção, e, como temia, nos sentamos, seguindo um ritual que indicava que ficaríamos horas estáticos, apreciando o que mostrava-se desagradável, enchendo os poros de angústia.

Minha esposa e meu filho afetivo resolveram cantar. Num piscar de olhos, estavam com microfones, cantando no videokê, enquanto um japonês com o pé quebrado manuseava o equipamento. Fiquei surpreso. Instantaneamente, a cortina espessa do bar, cortiça que impedia de enxergar a diversão, foi rasgada, e o som da música inundou o espaço, transbordou em meus ouvidos, foi ouvido nas matas, morros, chácaras, sítios, fazendas, cidades. Um som preciso que segurou a terra, penetrou-a, fez amor com ela, fecundou-a e proporcionou que as raízes de dezenas, centenas, milhares de arbustos, plantas e árvores irrompessem e substituíssem a vegetação calva, desmotivada. Pessoas cantavam em coro, dançavam, giravam como girassóis, aquecendo o local. Havia felicidade.

Como pude me esquecer da vocação de minha esposa? A música a acompanhava, era seu deleite. Sua voz quebrou o encanto dos escombros e o recanto fez jus ao nome. Pessoas chegavam de vários lugares, vinham sem saber como, içadas pela voz sublime, canto de Sereia, e resplandeciam com o barulho da satisfação.

Poucos sabem, mas basta conversar, ouvir a voz de outra pessoa, mesmo desconhecida, para sentir-se bem. O barulho afugenta a tristeza, a preocupação. Por isso, há quem durma com a TV ligada, o som embala o sono, proporciona a sensação de não estar sozinho, o som acompanha, é amigo. Os personagens dos filmes passam a ser amigos: cawboys, policiais, cavaleiros da idade média, nativos, viajantes estelares, todos povoam a realidade da semiconsciência, até que o sono dá seu beijo, e tudo passa a ser sonho. O sono é um ósculo profundo.

Caminhei alguns passos e espantei-me, porque lá fora tudo estava cheio de vida. Não queria ir embora, mas sorver o embevecimento proporcionado. Tive certeza que a primeira impressão não é a que fica. A primeira impressão é fugaz, desfaz-se num estalar de dedos, desaparece como se nunca tivesse existido.

Somos apresentados a alguém e, ora sentimos simpatia, ora sentimos antipatia. Por quê? A primeira impressão, quase sempre enganosa, nos leva a crer que estamos certos. No auge da arrogância, julgamos o outro sem conhecê-lo, sem saber o que, de fato, pensa. A primeira impressão é um descuido; erramos, porque estamos armados, preparados para enxergar e sentir o que é conveniente ao momento. A primeira impressão é um tormento.

Dei uma gargalhada e não conseguia parar de rir. Minha esposa, que suara de tanto cantar, perguntou se estava bem. Disse que sim. Quis saber porque ria tanto. Respondi que tudo estava diferente, como se fosse uma peça, como se estivéssemos interagindo com o espetáculo. De que está falando? Só porque cantamos? Não mudou nada. Como, não? Veja, a vegetação, as luzes, até as libélulas voltaram. Ela sorriu com um sorriso que foi um libelo à minha atitude. Saímos, fomos embora, mas antes vi um açude na escuridão espirrar água.

Realmente, nada mudara, porque tudo já existia, eu é quem não percebera. Não é possível perceber as maravilhas quando se está na margem da contrariedade, com uma venda no coração.

A primeira impressão é fugaz. A segunda impressão é audaz.

(Arte: "A Margem", de Matisse)
(Elson Teixeira Cardoso)

2 comentários:

Diana Menasché disse...

Que pergunta besta, mas essa história é real?
Ver tudo mudar num piscar de olhos é simplesmente maravilhoso!

Diversidade.com disse...

Adorei seu blog!!!!!!!!!



MUito Massa

Belo Texto!!!



Grande bjo