quinta-feira, 19 de julho de 2007

A MORTE CALA FUNDO NO CORAÇÃO

O que dizer para alguém que acabou de perder uma pessoa amada? Meus pêsames! Meus sentimentos! Seja forte! Foi a vontade de Deus! Chegou a hora! Estava sofrendo muito! Agora, está descansando! Estas são algumas frases triviais, que não condensam o que a pessoa necessita ouvir num momento de extremo sofrimento, mas quase sempre são utilizadas.
Às vezes, o melhor é não dizer nada, mas somente abraçar e deixar o abraço falar por si. O silêncio de um abraço apertado pode trazer consigo uma enxurrada de palavras (não-ditas) de consolo. Mas como consolar alguém que acabou de perder uma verdadeira parte de si mesmo, alguém que está incompleto? Nenhum ser humano, por mais que saiba que a morte é inevitável, está preparado para a perda definitiva, a perda vedada pelo túmulo. É imensamente doloroso saber que a pessoa com quem convivia, dividindo quase tudo, numa intimidade sublime, simplesmente foi embora, para nunca mais voltar; simplesmente deixou a existência, para viver somente nas lembranças.
Quando um casal se separa, é como se, um para o outro, tivessem morrido. Todos os momentos vividos juntos são lançados nas lembranças e a sensação de sepultamento será maior, dependendo de como tudo terminou. Um amor que chega ao fim é o mesmo que morrer e permanecer vivo. Mas o renascimento de um novo amor é o mesmo que renascer à vida. Somente quem experimentou essa sensação, sabe o quanto é sublime.
O que dizer para alguém que acabou de perder uma pessoa amada numa tragédia? As mesmas frases triviais? Uma morte trágica traz em si a perplexidade, a indignação, a revolta. E, cada vez mais, acontecem mortes trágicas.
A colisão entre o Boeing da Gol e o jatinho Legacy, no Parque do Xingu, no Mato Grosso, no dia 29 de setembro de 2006, provocou 154 vítimas fatais, todos passageiros do Boeing da Gol, dando início à crise do sistema de transporte aéreo no país, que vem beirando o caos.
Em São Paulo, o desabamento da linha 4 do metrô, no dia 12 de janeiro de 2007, provocou sete mortos num acidente resultante da falta de fiscalização, algo impensável para a maior cidade do país.
No Rio de Janeiro, no dia 7 de fevereiro de 2007, ocorreu o assassinato mais que horrendo do garoto João Hélio Fernandes, arrastado até a morte por cerca de sete quilômetros, vítima de um crime que abalou ainda mais os pilares da segurança pública do Rio de Janeiro, e do país.
Se não bastassem essas tragédias, no dia 17 de julho de 2007, em São Paulo, ocorreu o pior acidente aéreo do país. No Aeroporto Internacional de Congonhas, o Airbus 320, da Companhia Aérea TAM, saiu do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, e, ao aterrissar em São Paulo, derrapou na pista, atravessou a Avenida Washington Luiz e colidiu com um galpão da empresa, explodindo e provocando cerca de 186 vítimas fatais confirmadas, podendo haver mais.
Um acidente que ultrapassou os limites da tragédia, provocado pela pista escorregadia, falha mecânica ou imperícia humana, ou tudo junto. Uma catástrofe que fez o Brasil chorar. Que sirva para as autoridades refletirem sobre mudanças imprescindíveis no sistema de transporte aéreo do país, incluindo a retirada de aeroportos de áreas com edifícios e casas no entorno.
Não é fácil lidar com a morte, não existe uma fórmula. Por mais bem preparada que a pessoa esteja, não estará imune ao sofrimento, à sensação de vazio no coração que a perda provoca. E não adiantará dizer que a morte não é um fim em si mesma, mas uma continuidade, um estágio que tem que ser ultrapassado, enfim, é o prosseguimento da vida. Isto, somente o tempo mostrará. Até lá, a dor profunda terá que ser regada com lágrimas, até a ferida cicatrizar, parar de doer.
Talvez não faça diferença, tamanha a dor, mas é possível dizer a todos que perderam o pai, a mãe, o filho, a filha, o irmão, a irmã, o esposo, a esposa, o amigo, que há quem solidarize-se com a perda.
Sofrimento compartilhado é sofrimento que transforma-se em força e determinação.
Aos que sofrem, recebam o consolo de um abraço. Mesmo que seja um abraço a distância.

(Arte: "Guernica", de Pablo Picasso)

(Elson Teixeira Cardoso)

2 comentários:

Analuka disse...

Tragédias como estas que relembras aqui nos comovem profundamente e, sim, abrem fundas feridas em quem perde um ente amado!... Se nos fazem pensar na questão da VIDA-MORTE-VIDA, desde sempre tão difícil de lidar, também provocam reflexões a respeito da complexidade nos modos com que se lida com a própria vida e seu valor, neste mundo em que quase tudo é banalizado... Sim, compartilhemos a dor, e pensemos, esperando que a tragédia resulte, ao menos, em algumas mudanças concretas. Abraços alados!

Anônimo disse...

este e outro texto sobre a morte:
o que e morrer?
morrer e deixar tudo quanto eu tinha neste mundo: parentes, amigos, conhecidos, protectores... por mais poderosos que sejam nao poderao dar me outro momento de vida. morrer e ver me abandonado de tudo quanto eu amava, com amor licito. dentro de poucos dias, semanas ou meses, ja ninguem pensara em mim.
que loucura, pois, compremeter a salvaçao da alma para agradar aos homens que tao depressa me hao de esquecer!...
que necessidade tenho eu de me desvelar agora tanto pelo corpo?
que loucura esquecer o fim ditoso pra o qual fui criado, por coisas tao futeis e passageiras?...

hei de, morrer.
foge o quanto puderes dos hospitais e de lugares infectados; toma quantas percaussoes quiseres, usa de alimentos saos, consulta habeis medicos...morreras e o pior de tudo uma so vez. se tivesses de morrer duas vezes em caso de erro, poderia corrigi los; porem e uma so vez e depois............... A ETERNIDADE...

quando e como morrerei?
nada disto sei. ignoro em que tempo; sera este ano?...esta semana?... hoje mesmo?
nao sei como morrerei; se numa igreja, ou numa festa, se na rua ou no meu leito... se eu graça ou em pecado?... e havera que se atreva a pecar havera quem seja capaz de passar tranquilamente dias, meses ou anos em pecado?... ou em ocasiao proxima disso?...

que farei?
se agora tivesse de morrer, como quererias ter vivido? que confissao quiseres ter feito? porque nao fazes, pois, agora o que querereis ter feito no terrivel transe da morte? porque, agora que posso, nao faço o que entao talvez nao poderei fazer?