sábado, 2 de junho de 2007

O TEMPO NÃO PASSOU (MINICONTO)

Terminava de pintar um quadro, quando uma nuvem envolveu o estúdio, tornando-o um quadro vivo, um castelo com torre alta, uma outra época. Ele chegou à porta, com o semblante decidido, e tomou-a nos braços. Ela, surpresa, envolta pelo mistério, sentiu seu corpo ser envolvido por uma sensação inebriante, fragrância do amor.

Acordaram ao entardecer, com o desejo exalando dos poros, o amor querendo novas formas. Lá fora, as nuvens eram de várias tonalidades e bailavam à luz ensolarada. As sombras, livres, libertas dos grilhões, formavam uma grande roda, de mãos dadas, entoando canções medievais.

Eles eram um só, na dimensão do prazer. Não diziam nada. Não era preciso. Os movimentos, os olhares, os gestos, bastavam. Compreendiam-se. Ela, terna, recebeu um toque na face ruborizada e permitiu que seus sonhos saíssem da caixa de Pandora. Névoas transparentes, pingos de chuva, reflexos, imagens grávidas, pássaros voando em formação, baleias saltando dos mares, o céu tansbordando de um azul intenso. Tudo podia ser contemplado, enquanto os lábios encontravam-se, imantados pelo amor.

Passaram-se mil anos, apesar de parecer uma hora. Ali, o tempo não passou, permaneceu cristalizado no relógio de parede derretido, ampulheta imóvel. Cada um enxergava-se nos olhos do outro, viajava pela imaginação do outro, respirava a respiração do outro. Cada um era um espelho em que o outro via seu reflexo. Os dois jamais saíram de perto um do outro. Não podiam. Estavam selados pelo amor.

(Arte: "O sonho aproxima-se", de Salvador Dalí)

(Elson Teixeira Cardoso)

2 comentários:

Analuka disse...

O sonho de amor eterno parece ser recorrente por aqui..

Diana Menasché disse...

Oi, Elson!
Em primeiro lugar, preciso te dizer que acho muito legal isso de relacionar o quadro com o conto... (como você também alcança com poemas)
Muitos dos que tentam essa aproximação dos códigos terminam por se limitar à superfície, ou a detalhes do quadro, mas o legal é que você avança, além, além, além das duas dimensões. Acho isso muito bacana, porque passo REALMENTE a ver o quadro de outra forma - com suas partes escondidas.
Cara, gostei do fato de mesmo retratando um momento de proximidade entre dois amantes o conto ficar num patamar acima. Ele voa super além da grosseria! Acho que a expressão "sonho de amor eterno" tem a ver com essa "superioridade", no bom sentido.
Tudo de bom!